Apego

por Gilda Franco Montorocaro, Revista de bordo Varig, 1997

Quando perguntamos para as pessoas qual o significado da palavra amar, a grande maioria faz associações com dois temas: desejo de proximidade com o amado, que é percebido como um ímà, um polo de atraçào positiva; sentimentos de preocupação, cuidado e proteção, com o bem-estar do amado.

As definições teóricas de amor, encontradas nos l ivros, enfatizam o segundo tema, ou seja, o lado benevolente e generoso do amor. Entretanto, trabalhando há duas décadas com o terapeuta de casals e familias, já ouvi milhares de queixas de pessoas que se sentem mal amadas, que gostariam de receber mais; porém, ouvi um número muito pequeno de pessoas infelizes por não serem capazes de amar mais ou se dedicar melhor aos seus amados.

Portanto, se em termos ideais amar é dar, na nossa vida diária amar é receber. Queremos que nossos parceiros tenham empatia cm nossas necessidades, se preocupem conosco e ponham nosso bem-estar na frente do deles. Somos uma espécie naturalmente egoísta, pelo menos a major parte do t empo.

Mas nem sempre.

Ao longo dos séculos o amor materno vem sendo cantado em prosa e verso como uma emoção tão forte e universal, tão carnal e tão espiritual, talvez o laço afetivo mais forte e visceral entre todos os da espécie humana.

Muitos teóricos, entre eles Freud e Jung, localizam o vínculo máe-filho (ou máe-bebê) como o prototipo de todas as relações de amor. Neste vínculo temos um lado basicamente doador e altruista, a máe que cuida, e um lado basicamente receptivo e incorporativo, a criança apegada.

O amor da máe é o ingrediente vital que humaniza a criança e revela sua identidade, tornando-a única, um sujeito do verbo ser que vivencia "sou amado, logo existo" muito antes do "penso, logo existo". De fato, o amor mantém ao longo da vida essa mesma função, a de revelar nossa identidade enquanto humanos, na medida em que a existência de cada um é impossível sem a realidade concreta e simbólica do outro.

Apego, um tema profundamente estudado pelo psicanalista inglês John Bowlby, é o nome que designa a primeira forma de amar do ser humano, e a mais importante, por ser o alicerce das outras que virão depois. Apego é o vínculo afetivo que une o bebê à máe, o qual implica: busca de proximidade, especialmente em condições de stress; alegría de estar perto, de ver, de tocar; necessidade do outro para aliviar a ansiedade, o medo e o desconforto; sofrimento terrível da separação.

Soa familiar a uma paixão adulta? Pois não estranhem: o amor romântico sexual tem vários ingredientes em comum com o apego; mas, por enquanto, voltemos ao bebê.

Ao nascer, o bebê ainda não ama ninguém. Mas geneticamente já tem uma predisposição arquetípica para se vincular à figura materna, aqueta que cuida de maneira altruista, sintonizada nas suas necessidades. Da interação afetiva dos primeiros meses brota o apego, que por volta dos sete meses se torna evidente, através dos comportamentos de busca de proximidade, alegría no contato e resistência à separação. Embora enquanto fenômeno afetivo o apego seja propriedade da criança (ou pertença à criança), ele reflete a sensibilidade de quem dela cuida.

Crianças cuidadas por figuras maternas estáveis, que sejam sensíveis, disponíveis e receptivas para com suas demandas naturais de proximidade e aleto, tendem a desenvolver um apego seguro que pressupõe uma crença subliminar na possibilidade de amar e ser amado; o bebê se percebe inconscientemente como gostável, digno de ser amado: e podendo contar com suas figuras de apego caso necessite. Isso torna esse bebê mais confiante, seguro, tranqüilo, menos manhoso e possessivo, mais fácil de acalmar quando alarmado e o mais importante com um bom alicerce para ao longo da vida vir a desenvolver relaçòes de amor duradouras e gratificantes. Pesquisas mostram que aproximadamente 65% das crianças desenvolvem esse padrào.

Infelizmente as relaçòes de apego de uma criança podem se desviar do sadio e desejável. Aproximadamente 20%. das crianças desenvolvem um padrào de apego inseguro evitador, que implica percepçào inconsciente de si próprio como indigno de ser amado, e de suas iïguras de apego como rejeitadoras e não disponíveis. Esse padrão tem como antecedentes situaçòes de abandono, grave falta de sintonía ou figuras de apego com horror a contato físico ou diiiculdades crônicas de exercer o cuidado materno. A criança com esse estilo afetivo tende a ser aparentemente iría, evitadora de carinho corporal ou proximidade emocional; possui dificuldades gerais de confiar e interagir de maneira amorosa com outras crianças ou figuras de autoridade. Caso não haja experiências corretoras em seu desenvolvimento, tende a se tornar adulto com problemas crônicos de compromisso e entrega, frío e arredro, descrente e propenso a relaçòes de amor pobres e pouco estáveis. Nos casos multo graves, esse padrão predispõe à delinqüência e conduta anti-social.

Ainda de acordo com as pesquisas, 15% das crianças desenvolvem um padrão, também inseguro, chamado apego ansioso ambivalente. Neste caso existe uma crença inconsciente de que as figuras de apego são instáveis, imprevisíveis e pouco confiáveis, e que portanto devem ser vigiadas e controladas constantemente para obtenção de níveis de proximidade e atenção julgados adequados. São crianças possessivas, exigentes, com baixa tolerância à irustração (porque esperam ser sempre frustradas, não agüentam nenhuma contrariedade). Ao mesmo tempo, reagem à proximidade com ambivalência, rejeitando a figura materna quando esta se mostra disponível; são difíceis de contentar e tendem a exaurir os adultos que dela cuidam. Este padrão costuma ter como antecedente país ou cuidadores de comporlamenlo inslável e imprevisível, que ora se encontram disponíveis, ora ausentes ou rejeitadores; também é promovido por separações, por exemplo viagens dos país nos primeiros anos de vida, ou por ameaças de abondono usadas como meio de disciplina. Adultos que conservam esse estilo de amar tendem a se apaixonar com facilidade, mas a se decepcionar com rapidez, estando sempre preocupados com temas de abandono ou proximidade insuficiente; tendem a relações possessivas e insatisfatórias.

Depois do que foi dito, fica claro que é preferível que uma criança tenha mais de uma figura de apego da qual derive sua segurança e nào dependa só da máe que, sendo humana, está sujeita a oscilações e impedimentos variados. A criança que é apegada ao pai e aos avós, por exemplo, tem mais pessoas com quem contar. Essa é uma condição natural nas sociedades primitivas e agrárias, porém menos freqüente nos sociedades industrializadas onde a máe, muitas vezes, é a única figura de apego da criança, o que é uma condição difícil para os dois lados.

Um dado otimista é que a natureza humana é bastante plástica nos primeiros anos de vida. Crianças que demonstram desvíos de apego pòdem reverter a um desenvolvimento saudável quando seus país ou cuidadores entendem seu sofrimento e conseguem ter um comportamento mais disponível e receptivo em situações de ansiedade e busca de proximidade. É principalmente através da mudança de atitude de suas figuras de apego que a criança pode mudar suas hipóteses inconscientes sobre o funcionamento das relações humanas e a possibilidade de amar e ser amada.

Não adianta tentar disciplinar distúrbios de apego. É inútil bater, pôr de castigo ou ignorar atitudes iniantis de possessividade e grude excessivo, assim como atitudes de frieza e distanciamento pseudo-indiferentes. Ter paciência e investir na segurança afetiva da criança sào as únicas medidas que funcionam; além do mais, consistem num bom negócio, a médio e longo prazo, mesmo que pareçam tào cansativo e consumidor de tempo, a curto prazo. Às vezes hastam 15 minutos de atenção carinhosa e individualizada, de manhá e à noite, para reverter um quadro de insegurança afetiva numa criança. Atrás, o mesmo também costuma ser verdadeiro tras relações conjugais...

Nenhum pai ou máe consegue criar filhos peneitos, totalmente seguros e confiantes. A maternidade e paternidade costumam ser as áreas onde mais investimos e onde mais temos a sensaçào de fracassar. Mas sempre vale a pena tentar, mais e mais. Esse esforço melhora a espécie humana; além disso, para cada um de nos, o amor, especialmente o amor pelos filhos, é um dos grandes fatores de significado e sentido em nossas vidas, quando não o maior deles. Vale investir.


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